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A criança que habita em nós

Existe uma criança mim, em você e em todos os adolescentes, jovens, adultos e idosos. Existe uma criança em nós que fala tão alto quanto os megafones dos carros dos políticos em época de eleição ou como os gritos de pranto de uma mãe que acabara de perder um filho. A este som que ecoa sutil e silenciosamente em nós, dá-se o nome de inconsciente (Ics).


Mas por que temos essa criança tão viva em nós? O que ela está, a todo o tempo, querendo nos dizer, e por que não damos ouvido à ela? A psicanálise nos ensina que a nossa mente usa mecanismos de defesa para lidar e/ou contornar os medos e traumas provenientes do passado. Um desses mecanismos é a regressão.


A regressão tem seu start quando um acontecimento ruim atual, ou seja, que está acontecendo no momento presente, nos faz sentir algo que nos remete ao passado, quando, lá atrás, este sentimento foi contornado de maneira infantil (como era de se esperar de uma criança) como: choro, birra, manha, agressão, silêncio ou qualquer outro que, para esta criança, naquele momento da sua infância, surtiu um resultado positivo, seja conseguir um brinquedo, chamar a atenção, ganhar um presente ou até mesmo se defender de algo que não lhe agradava, passando então a sentir um alívio das tensões e aflições. Este comportamento é, a princípio, absolutamente aceitável e compreensível para uma criança que se encontra em fase de desenvolvimento das suas emoções e capacidades de gerir sua inteligência emocional. Este desenvolvimento é de responsabilidade dos pais e/ou cuidadores, dando a esta criança uma educação coerente com a realidade e mostrando os limites e as condições de se viver em uma sociedade. Mas este é assunto que abordarei num próximo texto. Por ora, permita-se ouvir o que a sua criança tem a dizer!


Já na vida adulta, de maneira inconsciente, nos momentos em que esses sentimentos ruins surgem, tendemos a repetir o comportamento infantil na intenção de conseguir a mesma sensação de alívio e de resolução da problemática que conseguimos na infância. Não necessariamente o evento atual que nos leva a usar ao mecanismo de regressão tem uma ligação lógica com o acontecido na infância. Às vezes reagimos de maneira absolutamente descabida sem que os fatos justifiquem tais ações exageradas e sem uma explicação aparente. Porém, o que a psicanálise nos pede é um olhar mais atento para esses comportamentos que se repetem em alguns casos. Vale salientar que o fato não ocorre somente em pessoas que apresentam algum tipo de patologia psiquiátrica.


É bastante difícil separar o que nos trouxe até aqui do que nos tornamos hoje. Separar a nossa criança do nosso adolescente, do nosso jovem ou do adulto que somos hoje é uma tarefa praticamente impossível, já que somos o resultado das nossas experiências e inevitavelmente trazemos essas vivências em nossa bagagem. Alguns fatos e vivências ficam armazenadas no nosso pré-consciente (Pcs) ou no reservatório moral do superego, e, ao sermos provocados, buscamos na memória e trazemos para o consciente (Cs). Em outros casos (em geral ruins ou traumáticos), para nos “proteger”, nossa mente armazena tais vivências no inconsciente (Ics), que é o lugar onde arquivamos os acontecimentos que nos geraram traumas, medos e sentimentos ruins.


Contudo, sabemos que o inconsciente (Ics), ainda que não consigamos entender exatamente como ele funciona e como dominá-lo em sua totalidade, se faz presente em nossas vidas muito mais do que podemos imaginar. Como citado acima, muitos dos nossos comportamentos de hoje, já na vida adulta, são geridos por essa criança que habita em nós. A psicanálise vem para nos mostrar caminhos possíveis de se obter acesso a essa criança e entender suas aflições. Fazer com que os sentimentos, em geral aumentados (o que é comum na fase da infância), não se estabeleçam de forma traumática e absoluta neste indivíduo.


Existem diversas maneiras de abordagem dentro do campo psicanalítico que oferecem ferramentas para tratar o indivíduo que recorre, dentre outros, ao mecanismo de regressão para lidar com suas mazelas. A hipnose, técnica usada por Josef Breur (1893) ficou conhecida após o famoso caso de Anna O. (primeiro caso de sucesso no tratamento a histeria). Através da hipnose e por meio da escuta, o terapeuta induz o paciente a rememorizar traumas do passado afim de ressignificar as memórias e consequentemente eliminar os sintomas. Á esta técnica, deu-se o nome de método catártico. Freud, seguiu utilizando a hipnose em seus pacientes, mas logo em seguida desenvolveu a técnica de associação livre, que consiste em que deixar o indivíduo falar livremente sobre qualquer assunto, sem julgamento ou distinção. Ambas as técnicas são ferramentas que o terapeuta pode usar para ter acesso ao inconsciente (Ics) do paciente e assim ajudá-lo a reviver suas aflições do passado com a finalidade de promover uma descarga de energia que fará com que o sentimento seja anulado ou ressignificado, trazendo alívio e até mesmo a cura de alguns sintomas.


Infelizmente, o número que temos hoje de pessoas que sofrem desses descontroles e que se sentem escravas de si mesmas não é pequeno. Estamos evoluindo de maneira frenética para uma sociedade doente emocionalmente e por isso o número de profissionais que estão buscando se capacitar para ajudar nessa pandemia de desequilíbrio emocional está crescendo a cada dia. Incluo-me nessa busca e deixo uma mensagem baseada no conhecimento adquirido neste primeiro módulo, a respeito do tema acima.


Olhar para o indivíduo em sua totalidade, ter empatia e sobretudo humildade, deve ser o pilar para um terapeuta obter êxito com seus pacientes. Em análise, não trate um adulto como uma criança, mas, olhe para ele e veja a sua criança. Mostre para esta criança que está tudo bem sentir medo, que está tudo bem sentir raiva ou desejo, está tudo bem chorar. Dissolva o sentimento ruim daquela situação do passado e quebre a ligação que mantém o adulto preso aquela infância dolorosa, possibilitando a liberdade e a cura dos sintomas causados pelos traumas.


#Permitir que a criança que habita em nós seja livre, leve e feliz.

Sobre a autora

Danielle Machado

Psicanalista e Gestora da EPC

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