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O desejo na ótica da Psicanálise

“O desejo tem duas formas de humilhar você.

Uma é impedir que você o realize e a outra é realizá-lo.” (Schopenhauer)



A trajetória do Homo sapiens desde o desenvolvimento da linguagem tem sido atravessada pela temática do desejo. Na teoria psicanalítica, desejo, em termos gerais, é o que move o sujeito na medida em que este “cria” quando deseja. Esse conceito está relacionado à experiência individual, ao seu histórico de vida. Para Freud, desejo é o reservatório de libido não realizada; é a soma das faltas.

Nessa perspectiva, todo desejo é a busca pela falta, que está sempre no outro. O desejo, como um pêndulo do divertimento, é interminável. Refiro-me, primeiramente, ao fato de que se deseja o que não se tem; mas, em tempo que o sujeito conquista o que desejava antes, agora já de posse do objeto de desejo, ele não mais deseja AQUELE objeto, mas outro. E, assim, volta ao marco inicial: deseja o que não tem. É curioso pensar, portanto, que esse desejo, que justamente precisa da falta, procura a presença que posteriormente o aniquila. Assim, para Clóvis de Barros Filho, todo desejo é suicida. No entanto, a substituição do objeto do desejo não resolve os dilemas da vida humana. Isso porque, segundo Lacan, o pai dos desejos é ser desejado pelo Outro. Esse desejo não é estritamente sexual. É um desejo pelo olhar do Outro. Desejamos o que o outro deseja, como um reflexo desse Outro.

Mas, então, qual seria o objeto que conecta as pessoas que buscam a realização do desejo? Ele simplesmente não existe. Aquilo que o sujeito acredita estar no Outro, e que lhe falta para que se sinta realizado, não está “lá”. É uma ilusão necessária, porque, do ponto de vista da pulsão, não há objeto; é um vazio que movimenta o desejo, por ser algo que não se inscreve simbolicamente.

O desejo não pertence ao campo racional do ego. É conflito: uma parte dele é oculta e contra a qual lutamos. Por esse motivo, o desejo precisa ser decifrado. E é necessário ter coragem de se deparar com ele e, mais importante, sustentá-lo. De acordo com Lacan, só se sente culpado quem cedeu ao seu desejo. Para o psicanalista francês, em um dos lados da moeda está a culpa e no outro, a responsabilidade. A culpa é a crítica do superego, a consciência irracional do dever. A responsabilidade é, acima de tudo, a consciência do verdadeiro desejo do sujeito.

Kant entendia o desejo como uma inclinação do corpo e da mente àquilo que nos faz falta e que inapelavelmente buscamos. Já a vontade, segundo ele, é o crivo de inteligência imposto ao desejo – em outras palavras, a inteligência valida se o desejo vale a pena ou não. Mas, na medida em que na psicanálise não há valores absolutos, como pensa Daniel Perez, uma coisa é desejar; a outra é querer. Por muitas vezes, fazemos o que não queremos porque desejamos. E o contrário também pode ser verdadeiro. Assim, cabe-me concluir que reconhecer o que realmente desejamos é um ato de responsabilidade ao lembrarmos da necessidade do balanceamento entre a realização de prazer e as consequências sociais e culturais resultantes de nossos desejos mais primitivos.




Sobre a autora:


Tatiana Wippel é aluna de formação em Psicanálise pela EPC (www.escoladepsicanalisedecuritiba.com)



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